quinta-feira, 30 de abril de 2015

Roxana Crônicas: A Festa

Roxana Crônicas: A Festa:            De natureza tímida e poucos amigos, estranhei o convite para a festa de aniversário do meu vizinho de andar, com o qual, eventua...

A Festa

           De natureza tímida e poucos amigos, estranhei o convite para a festa de aniversário do meu vizinho de andar, com o qual, eventualmente, encontro no elevador e que não deixa dúvida: é tão tímido quanto eu. O rapaz sequer permite que uma eventual beleza seja revelada, pois vive de cabeça baixa e, mesmo quando nos encontramos descarregando compras, por exemplo, e ele, vencendo a timidez me oferece ajuda (que eu, vencida pela minha timidez, recuso), nem assim, consigo ver direito seu rosto. Cheguei a suspeitar que seu queixo fosse colado – por um defeito congênito - ao esterno.
            Nos últimos dezoito meses temos nos encontrado, ocasionalmente, que habitamos o mesmo decadente edifício. Ele se mudou desde esse tempo, eu moro aqui desde que nasci. Aliás, mamãe também. E vovó, desde sua desastrada juventude. Moramos as três no amplo quarto e sala que viveu, conforme diz vovó, melhores tempos. Somos três gerações de enjeitadas que sobrevivem por puro instinto e teimosia.
            Vovó, em 1929 foi abandonada, grávida, pelo noivo que, ao que parece, não ficou satisfeito nem com o produto nem com o dote (meu bisavô estava arruinado – vide o ano, ele era fazendeiro de café.)
            Vovó Celina – este é seu nomecuja desobediência a todos os valores da época salientava-se a cada dia -, não podia continuar mais naquela casa, naquela cidade, dando o mau exemplo para a leva de jovenzinhas casadoiras que se afilavam. Bauru, menos ainda, poderia tolerar tal insubordinação e não tardaria que essa jovem - que não era única – fosse alvo dos mais ofensivos falatórios. Acresce-se a isso o fato de meu bisavô, que por conta óbvias restrições orçamentárias, andar com a burra fechada para a igreja. O Padre, impaciente e insatisfeito, estava prestes a proibir todas as filhas de Maria da família Borges Siqueira de freqüentarem a igreja. Sim, argumentou o Padre, se proibisse apenas Celina, seria ainda pior.
            O motivo ninguém sabia, mas o fato é que meu bisavô mantinha um apartamento quarto e sala em São Paulo, devidamente mobiliado e equipado para ser prontamente ocupado. Móveis sólidos, cama de casal com colchão de mola, uma penteadeira cuja superfície era coberta de perfumes fortes e doces e na sala, para conforto geral, um sofá também de molas, um moderníssimo rádio e uma linda mesa de amendoim que servia para refeições e seu belo tampo marchetado, para um silencioso, longo e desafiante jogo de xadrez. Coisa de gente rica, coisas, como diz vovó, custosas. Nas paredes, reproduções de lânguidas criaturas em bordéis parisienses, em tons de rouge, algumas assinadas por Tolouse Lautrec.
            Era uma extravagância e tanto para quem se deslocava a São Paulo apenas duas ou três vezes ao ano. Sua calada esposa, minha bisavó Escolástica, que me conste, ignorava a existência de tal luxo e sequer pusera os pés ali, em toda a sua existência. Ademais odiava São Paulo.
            Mas lá estava, disponível e Celina deveria mudar-se imediatamente, ter o nenê, etc. Nesse etc, consta, era para dar o filho para alguém criar, voltar a viver em Bauru, essas coisas, coisas essas que não aconteceram.
            Vovó aqui chegou, vinda de trem, com duas malas de couro poídas, algum dinheiro, sua barriga que prosperava dia a dia e uma tia solteirona com seus “avançados” trinta anos. Os propósitos da vinda da tia Arminda eram fazer companhia a jovem, cuidar que ela não fizesse nenhuma bobagem (posto que só chorava) e espalhar pela vizinhança a história  de que aquela jovem grávida, perdera o marido numa grave doença e longa agonia. Tia Arminda fora a escolhida não apenas por sua solteirice lhe dar tempo de sobra. Era talhada para rechear a mentira de detalhes e exageros que lhe desse a devida verossimilhança. E tia Arminda saiu-se bem na empreitada, pois gostava muito desse negócio de espalhar notícias (se fossem falsas, melhor ainda).
            Vovó enviuvou sem casar e enlutou então, a precoce e inadequada gravidez. Penso que esse luto foi sua verdadeira catarse e matou, vestida de negro, seu amor. Um antigo retrato do jovem (e belo) namorado foi estrategicamente colocado sobre o itajer, para identificar o homem da farsa da tia Arminda. E lá ficou como um fantasma para recordar a cada manhã e instante e a cada uma de nós que os homens não são confiáveis.
            Ao lado do porta-retrato, uma vela de azeite, permanentemente acesa, para o defunto.  Lá está meu avô, com olhos distantes e tristes, num terno que parece apertado e mal passado. Tinha lábios finos e um meio sorriso deu vida ao retrato tirado por um lambe-lambe de Aparecida do Norte. Vovó, vez ou outra, observa o retrato e comenta com amargura: morreu pobre, o infeliz. Vovô, esse do retrato, cujo nome nessa casa ninguém menciona, mas sei de fonte segura que é nada mais nada menos que um prosaico e detestável Benedito, morreu aos quarenta anos, vítima de uma malária que contraiu num garimpo, numa de suas malogradas tentativas de enriquecer. Notícias, vindas de sei onde, trazidas por nem sei quem, nem mesmo se é verdade, sabemos. Pode ser que o homem esteja vivo, por ai ainda, viril (ainda não teria feito oitenta anos), quem sabe fazendo novos bastardos.
            Bem, minha mãe nasceu num sábado de mau tempo e vovó, sempre excêntrica, talvez quisesse chamá-la Chuva, Nuvem, Trovão. Mas batizou-a Sol. E ainda dizia para os poucos familiares que ousaram visitá-la em segredo: É linda, uma deusa asteca. Sol.
            Parece que meu avô era mexicano, filho ou neto de, enfim, um espécime e tanto, que foi atraído por vovó que também não era de se jogar fora. Engordou com os anos. Já Sol, a deusa, sua filha, revelou-se uma mortal comum, dizendo francamente, comum demais.
            Antes de mamãe completar um ano meu bisavô morreu, sem conhecer a neta nem perdoar a filha. Era vida real e não novela, assim foi. A situação financeira da família piorou com morte do progenitor, mas para minha avó Celina até que foi bom, pois julgaram por bem lhe deixar como herança o apartamento em que já vivia.
            Já eu, cheguei a este mundo trinta e nove anos depois, em vinte de agosto de 1968. Apesar de um mês antes, recebi o nome de Primavera. Mamãe, não sei dizer por que,  vivia com o olhar no mundo do hemisfério norte e como nasci no dia em que a Primavera de Praga sucumbiu, ela quis alongá-la, em mim. Vinte e um de agosto de 1968... Cheguei a este mundo juntamente com os tanques soviéticos em Praga. Mamãe quis incluir Praga em meu nome, mas vovó disse que isso não, absolutamente, loucura tem limites, que, em bom português Praga quer dizer coisa ruim. Leu, solenemente o verbete, na enfermaria da Maternidade São Paulo: “praga, do latim plaga, imprecação de males contra alguém,  calamidade, flagelo, grande abundância de coisas desagradáveis, inoportunas, nocivas”.
            E completou, com seu vozerio de espantar valentão: Exceto se deseja homenagear aquela praga de homem que lhe deixou essa filha...
            Primavera Ramos eis como ficou meu nome, contemplando apenas o sobrenome da ascendência feminina  já que uma certa antipatia aos homens germinou em solo fértil, naquela micro-família, ao longo dos anos. Vovó nunca mais teve um mísero namorado e aquele apartamento era freqüentado apenas por mulheres que lá iam para experimentar seus vestidos (vovó sobreviveu costurando para fora, como se dizia). Exceção ao zelador que às vezes ia ver encanamento, trocar borrachinhas de torneiras, consertar o aquecedor, essas coisas, nenhum ser do sexo masculino avançava por nossos domínios. Aquelas paredes só testemunharam vidas femininas e vovó desencorajou mamãe a se relacionar com rapazes e mamãe, dos homens, só sentia pavor.
            Exceção feita ao jovem que vivia à porta do bar da esquina da av. Ipiranga com a av. São João. Ao andar pela avenida, na volta das compras ou raro passeio ao cinema e à igreja, mamãe também colava o queixo no osso esterno e não podia, ainda que São Paulo dispusesse delas, ver estrelas.
            Mas a natureza tem poder e a natureza de mamãe gritava, urrava, por satisfazer suas necessidades e ela cedeu ao calor que somente aquele olhar lhe causava, todas as tardes, na volta da padaria. Mamãe aos trinta e oito anos ainda não se dedicara de corpo e alma aos prazeres da boa mesa, deste modo, mantinha, digamos assim, um atraente invólucro para sua alma pura e simples.
            Já ele era metido a besta, a valentão e até mesmo a bonitão (afirma mamãe que ele era lindo, mas as fotos desmentem esta visão onírica que ela jamais abdicou). Ele tocava guitarra elétrica, tinha os cabelos longos, os lábios grossos, usava calças de brim dobradas na bainha e camisa de mangas curtas, apertadas em bíceps medianamente desenvolvidos.
            Cantava. Tinha a voz igualzinha a de Elvis Presley e mamãe passou a suspirar por aquele rosto quase selvagem e passou a passar diariamente naquela esquina, pontualmente às vinte horas, exatamente no horário em que aquele rapaz tragava seu sagrado conhaque antes de integrar-se nos bares da noite de então, entoando suas canções melosas em troca de alguns dinheiros.
            Revelo o nome: Eurico Cardoso, nome antigo, do avô, que ele trocou pelo nome artístico de Wanderley Cardoso (homenagem ao irmão que nasceu ao morrer). Foi um desconsolo quando teve que trocar de nome, pois tinha um outro cantor fazendo muito sucesso ai, com esse nome. Resignou-se e impôs ainda mais pompa: Wesley Costa, esse sim, muito mais bonito, e sonoro, e promissor. 
            Mas tantos nomes serviram apenas para facilitar suas fugas, para ajudá-lo a sumir na poeira, pois mamãe nem sabia por quem procurar e em cada lugar que ela indagava, surgiam vários homens, nenhum paradeiro, mais dúvidas que certezas. Ela queria somente que ele me conhecesse, que se ele me visse, que, linda como eu era, ia querer ser pai, casar, morar junto, amar sem medida, então saía comigo nos braços, na madrugada, bar em bar, todos a olhavam com desdém até que uma puta, dessas bem putas mesmo, cara de puta, roupa de puta, sapato de puta, etc, a chamou num canto e disse:
            - Beibe, gueralti, que esse homem que você está procurando não cria raiz e nem põe água em fervura. Já era, ele se foi e disse que nunca mais vai voltar.
            Nunca soube, por que mamãe nunca falou sobre isso, se aquela tristeza profunda que ela carrega no olhar é saudade daquele amor, daquele homem que a seduziu, virgem aos 38 anos, nunca amada, nunca tocada, sem destino, e que se deixou conduzir por aquela escada circular, que ia subindo, subindo, achando a chave no bolso, errando a fechadura, bebendo do gargalo o conhaque português – que aquela noite tinha que ser conhaque bom, de preferência português – a porta fechando, o frio da janela aberta, a cidade silenciosa e o pequeno apartamento, feio, tacos soltos, roupas jogadas, louças sujas, e sua ventura, sua maior ventura. Havia um som distante, naquela noite, a primeira de uma série de quatro ou cinco, que mamãe não gosta de ouvir até hoje: sirene de bombeiro que, soube depois, na manhã seguinte, outro lugar também ficara em chamas, ali perto. A sirene tocou, tocou, tocou, tocou.
            Depois dessas noites incandescentes, conforme me antecipei e revelei, ele passou a ignorá-la. Em seguida, sumiu. Aí, ela ia lá, batia na porta, a vizinha abria a porta do lado, dizia que ele não estava, tinha viajado. Seis meses depois da turnê ela conseguiu finalmente ficar frente a frente com aqueles mesmos olhos, aqueles mesmos cabelos cheirando brilhantina, a porta semi-aberta e uma voz feminina lá no fundo que o chamava, insistentemente. Sua barriga denunciava a avançada gravidez e ele disse apenas:
            E eu com isso?
            Foi mesmo uma frase assim, meio assim, talvez um pouquinho diferente, mas não muito e a essência, o sentido, era esse mesmo. Esse homem, minha neta, contou-me um dia vovó Celina, quanto mais sua mãe insistia para conversar, mais ele ficava nervoso, e esse homem, de repente, deu-lhe um tapa e disse: suma daqui. Fora. Gueralti. Ela veio, pela av. Ipiranga, aos tropeços, carregando uma dor tão profunda que me revelou certa hora: Mãe, não vou aguentar.
            Mas aguentou como ordinariamente ocorre nas tragédias ainda mais trágicas, e nunca mais viu seu amor, o guitarrista que cantava...
            Você tem os olhos deles, minha neta, disse minha avó. E continuou: Mas o que fazer? Ele queria o Sol, mas sua mãe, chamada Sol, é nuvem, é chuva, é trovão.
            Como eu fui criada por essas duas mulheres, dou-me por contente em ser apenas tímida.
            E agora ao fato: a festa é à fantasia! 
Qualquer festa me apavora... À fantasia então, não podia sequer pensar... Mas ali está o convite, tentador, pois também as festas são tentadoras. Ali está o convite, sobre a mesa de jantar, entre a cesta de ovos, o saquinho de pão fresquinho, sobre a toalhinha de crochê, que encobre o marchetado xadrez. Ali está o convite sobrescrito com letra elegante meu nome: Primavera Ramos.
            Vó, eu disse, ele não falou nada, só deixou o convite?
            Parece que sim, ela não se lembrava bem, que minha avó não consegue lembrar de nada, só de sua infância, mas era isso, o rapaz tocou a campainha, ela mal viu o seu rosto, ele entregou a ela o convite, mudo, não disse nada. Isso mesmo, nada.
            Abri o envelope: local e data, sábado, no seu apartamento mesmo, eu não precisava nem sair à rua, tomar um táxi, nada, ia ter uma festa à fantasia, na porta ao lado. Depois de muito relutar, acolhi os conselhos e resolvi enfrentar a festa. Costurar a fantasia ia ser moleza com duas profissionais em casa. As opções eram muitas, mas eu, num rasgo de atrevimento, desejei uma fantasia de odalisca. Odalisca! De onde será que tirei esta ideia tão estúpida? Mas depois da aprovação das minhas gestoras, fiquei pendurada naquele detestável pêndulo: se elas aprovaram... Melhor não. Mas se resistir... Melhor sim.
            Embarcamos numa fantasia adicional que era projetar, escolher e confeccionar minha roupa. Os dilemas se sucediam já que minha vó era ousada e minha mãe, prudente – que sua única imprudência deixou marcas profundas. Deste modo por pouco minha fantasia não resulta numa indumentária esquisita uma odalisca arrependida, pudica, prestes a optar por uma burca.
Chegou a grande noite. Passei horas me arrumando e não me lembro de ter enfrentado, antes, situação tão adversa: assim que fiquei pronta – e linda segundo as opiniões tendenciosas – parecia impossível vencer minha timidez e atravessar aquele pequeno hall e ir àquela festa. Vovó repetia a todo instante que eu estava linda, o que há, até parece que nunca foi a uma festa!
            Vó! Pois nunca fui mesmo!
            Ela me olhou com seu olhar indecifrável e disse: Nossa... É mesmo. Abaixe essa saia, deixe aparecer esta barriga e vá!
Eu não me movia e vovó bradou:
Sol, faça alguma coisa pela Primavera!
            Sol, ou seja, minha mãe fumava pensativa, esticada no sofá. Olhava para as unhas, para mim e seu olhar opaco, mas sempre enigmático, pousou sobre os meus. Para mim, pura censura, fica que horror, aonde você pensa que vai com esta roupa horrível, etc. Mamãe era capaz de achar feia a roupa que acabara de achar linda.
Fez-se apenas silêncio. E vovó repetiu, enfática, patética:
Sol, faça alguma coisa pela Primavera! Você precisa agira agora!
            Sol não se movia. Vovó explicou tudo, que eu estava com medo de atravessar aquele corredor, ir à festa, que eu, veja bem, eu, não sabia que estava linda, que ia ser uma festa inesquecível. Vovó Celina, a sonhadora. Mamãe olhou-me novamente e falou, em tom molenga:
            Larga a mão de ser enrolada, cheia de drama, Primavera. Vai logo que eu quero mesmo é ir pra cama. Mas suba um pouco essa saia e vá. Esconde um pouco essa barriga.  Que horas são?
            Quase dez, meu Deus, chegou mesmo a hora da festa, mais um pouco e me atrasaria e isso também não se faz com um rapaz tão tímido, tímido como eu!
Não sei exatamente de onde veio a decisão. Mas achei que sim, tudo pronto, eu ia! E, corajosamente acertei o bustiê, abaixei mais um pouco a saia de sete véus, mordi os lábios e espalhei batom nas faces, vovó espirrou mais um pouco de Dune, perfume doce, quente e segurei a maçaneta da porta. Abri, sai ao hall vazio e escuro. Acendi a luz, olhei em torno: apenas as quatro portas escuras, testemunhas de minha vida árida, insípida. Virei-me, mas vovó não esperou. Fechou a porta atrás de mim. Vamos, vamos! E atravessei o hall, como uma peregrina, que a cada passo redimia dores e pecados.
            Toquei a campainha e a porta abriu-se. Atendeu-me Drácula. Olhei-o, parecia um jovem bem apessoado, não fosse a dentadura de plástico, umas manchas vermelhas ao redor da boca, uma sombra escura embaixo dos olhos. Drácula? Mas precisava ser Drácula? Quis rir, mas sou de natural modéstia, não ia arrojar-me na merecida gargalhada para meu anfitrião. Restou o gesto tímido, nervoso. Restou, com seus dentes afiados, um sorriso sem jeito e um constrangimento maior que o meu. Disse, finalmente, como se uma batata quente estivesse entredentes:
            Oi, entre... Você é a primeira a chegar...
            Sem graça, por motivos vários, sem saber o que fazer, respondi:
            Ah... Então acho melhor eu ir... Volto depois...
            E o pobre moço, que assim como eu não sabia agir, respondeu:
            Ah... Então tá...

            Virei as costas e voltei para casa. Não, não voltei à festa, que tampouco aconteceu, pois fui a primeira e a única a chegar.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Horas silenciosas

Só lamento que o velho relógio de parede, que foi comprado por meu pai, por lá, 1966 seja mudo: modernidades da época. Que ele não funcione bem, marcando horas de lugares e tempos distantes, que sequer servem de mera referência, não importa. Importa que seja mudo, quisera que fosse sonoro para que pudesse me lembrar, nas horas mais inesperadas, do meu pai, minha casa, São Joaquim da Barra, o chão de cimento, a reforma, as jabuticabeiras do quintal, as sombras das manhãs que buscávamos no caminho da escola, eu agarrada a sua cintura, as vozes na rua.
Mas, foi feito mudo. Era uma época de estranha estética, 1966.  Para ser moderno, abominava-se o antigo; era preciso rechaça-lo como a um primo pobre, um mau quadro, um café ralo. Sucumbiram pequenas casas das ruas transversais, ainda que em sua fachada, sob a beira, em alto relevo, exibissem seus antigos anos; Sucumbiram capelas, igrejas matrizes, calçadas de pedra, bancos de jardim centenários. Para o antigo, que pode ser soturno, perturbador e ainda assim reconfortante, restava  nas casas da avós, respectivamente carrilhão e relógio cuco, que entoavam o canto das horas e cortavam o silêncio da noite em cama emprestada.  Voltemos ao relógio mudo.
Meu pai, pouco afeito a compras de objetos para casa – aliás, pouco afeito a quaisquer compras de quaisquer supérfluos, não por desapego a estes, mas por impossibilidade financeira – chegou um dia com aquele prodigioso equipamento, um híbrido com pêndulo e pilha.  Escolheu um lugar na parede da sala de jantar, bateu o prego, pendurou o relógio de madeira. Suspeito que a compra tenha sido feita por sua incapacidade visceral de dizer não, particularmente a estranhos. E um deles o convenceu, por sua necessidade premente em vender um, pelo menos um, de seus vários modelos, tinha mulher e filhos. Meu pai não era um homem passional, menos ainda sentimental, mas de algum modo não resistiu à cantilena especiosa. Não podia corresponder ao desejo de meu pai, possuir aquele equipamento, apesar de útil. Seu senso prático o traiu, a casa dispunha de um relógio despertador, se alguém precisasse saber as horas, bastava caminhar até o quarto, era autêntico desperdício de reservas ou endividamento, aquele silencioso relógio que ficou, por anos, na mesma parede.
O pior é que aquele equipamento caro e comprado a contragosto, jamais funcionou direito. Papai dizia, o vendedor explicara: o relógio precisava estar sempre reto, retíssimo ou adiantaria, ou atrasaria. Não surgiu dai a frase, mas vovô, nas visitas mensais à nossa casa, vivia a repetir: relógio que atrasa não adianta.
Não atrasava nunca: adiantava. Vivia invadindo o futuro com uma avidez desconcertante. A tese que prevaleceu e que garantiu a permanência deste equivocado marcador de tempo preso à parede era que sim, melhor adiantar, afinal deste modo ninguém se atrasaria a qualquer compromisso. Nesse ponto, para mim, sempre atrasada, ele adiantava bem. Mamãe, pacientemente, acertava as horas, tentava deixa-lo reto e vivia nos enganando, dizendo que o relógio vivia seu destino de pontualidade. Ao me guiar por aquele relógio instável, mas sempre a frente do tempo, consegui levar minha vida escolar sem graves retardamentos.
Papai morreu logo depois, um ano, se muito. E o relógio foi alçado a significados insuspeitos: fez-se belo com sua madeira marfim e vidro bisotado. Fez-se presente, para contrapor àquela dolorosa ausência. Fez-se amigo das horas, ora perdidas, frouxas, cansadas. Fez-se joia, falsa a bem dos fatos nus, crus, mas joia que trazia a lembrança mais rara e cara daqueles anos caprichosamente dolorosos.
Lembro-me de uma tarde com minha avó paterna, perdida em lamentos, sentar-se à mesa de nossa pequena sala de jantar, e ali permanecer longos minutos,  olhando as horas, ou melhor, o monumento às horas. Vovó não queria deixar aquele momento escapar, viveu aquele tempo desenclaustrado, transformado em eternidade, em comunhão com o filho que partira antes dela. Segurei suas mãos geladas e avisei que vovô a chamava para o lanche. Ela se levantou sem resistência, mas antes de deixar a sala, atravessar uma enorme varanda de piso encerado rumo a mesa posta em nossa pequena  cozinha,  olhou a parede entristecida. E disse: este relógio podia parar. Parar para sempre.
Revelou-se aquela diáfana presença: vovó quisera naquela hora ser ausência. A vida empobrecera e relógio ganhara relevância, com um significado anteriormente insondável: era o pai, o marido, o filho, silencioso, que sondava nossas horas com a seriedade de uma presença que nos domava, era montanha, era terra, era céu, água, ar.
Os anos, quarenta praticamente, trouxe o relógio para minha parede, quando mamãe enjoou, definitivamente, daquelas horas erradas, mortas.

Aqui permanece silencioso, adiantando-se para o futuro, pois sempre foi sua maior vocação. Pena ser mudo, pois houvesse aqueles sons peculiares dos relógios e eu o ouviria como uma prece, pontuando meu dia em quarto de horas. Um clamor ao passado, afinal, som de infância pode ser uma lembrança doce.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Em um caderno, em 18 de janeiro de 1988

As noites quentes lembram a infância em São Joaquim da Barra, as suas ruas escuras, as brincadeiras na calçada, as manhãs amarelas, ensolaradas, com doce sabor de jabuticaba. Há, por acaso fruta mais lembrança que jabuticaba?
Já as noites frias me lembram do inverno de 1975, quando pisei na cidade de São Paulo para viver. A cidade, desconhecida, misteriosa demorou a me sorrir. Era fascinante para uma jovem com apenas uma mala na mão esquerda, alguns jornais amassados sob o braço direito, uma destra canhota que buscava disfarçar o embaraço de andar por ruas revoltas tal um mar bravio. A noite as ruas brilhavam e pela janela do apartamento do quinto andar, minúsculo para os padrões das casas interioranas, eu observava a cidade que ia calar-se parcialmente. Foi solitária minha estada inicial e pude experimentar sonhos ilimitados, receios limitadores, precipitadas angústias. Era a distância entre a criança e os primeiros sinais de maturidade em mim.
O calor sempre me agitou, com vontades bem bobas, de tomar sorvete de chocolate, limonadas ou suco de caju Maguary – era o primeiro industrializado, naquele Brasil quase amador de sua pretensa modernidade, ainda mais aquele caju nordestino chegando para anunciar que agora tudo poderia ser exatamente igual, mesmo gosto na bebida, na comida do restaurante da esquina, ou no café expresso. A impessoalidade das ruas, dos sabores idênticos, dos horários estranguladores, das buzinas dos automóveis estagnados colaboraria, definitivamente, para transformar o tempo numa mancha cinza, inequívoca: passado assim transforma anos, décadas, em estalo.
Os amigos distantes – alguns mortos – deram o tom de certa melancolia daqueles anos. A insegurança plena de estar viva era palpável: não havia ainda feito psicanálise e Deus estava vivo. Não bastasse encarar o fato que vivia e que tudo era real,  andava lendo poesia demais. E um poema de Omar Khayyam deu elevou o tom de meu desvario: "Somos os peões de misericórdia, Partida de xadrez, jogada por Deus, que nos desloca, nos para, nos põe adiante. Depois nos recolhe um a um para a caixa do nada".
Dava-me arrepios ocasionais saber que existia e mais, que deixaria de existir.
Indagava com resquícios juvenis da velha senhora que sempre habitou aquela jovem, quem poderia salvar-me do delito de existir? Quem poderia nos afastar do medo de existir e de saber que existimos? E como seria a imensidão do depois, sem herança, sem memória, sem futuro?
Ainda me ocorria que poderia ser outra e não eu. Outro ser, outro lugar, outro tempo. Estas possibilidades se apresentavam como maior, muito maior, do que a possibilidade de ser quem era, estar onde estava. Pensar que poderia ser outra, que existir é acaso e possibilidade, que poderia, então, estar a beira da guerra, ser miserável, ter fome e não poder comer, sequer aprender a ler me atormentavam.
Quem me presenteou com pais elegantes, cultos, responsáveis? Quem meu deu filhos lindos?A quem pertence este pulsar íntimo que ora é amor, ora é nada? Quem me deu tudo isto, mas que não posso reclamar minha inquietação?
Quem me tirou talentos musicais, artísticos, poupou-me de desengano de não sentir-me amada? Quem acolherá meu corpo cansado?
E alguém saberá que quisera ser mil? E que sou apenas uma e sequer me sinto única. Alguém poderá reparar que eu me sinto pouca e não me basto?
E eu vivo pensando que, tendo motivos, explicaria. Longe, pessoas nascem e o céu está repleto de aviões.  Pessoas vivem guerras, experimentam ódio, experimentam matar. Assim, alguns nascem à bordo dessas possibilidades, outros, à salvo. Muitos ficam à beira. Outros tantos caem. Crianças não comem, não comem, não comem...

E não sobreviverei neste deserto sem sombras, espiando certas obrigações em fazer coisas que jamais farei e que decerto vai construir agonias e remorsos. A pele que não me cabe dá ainda a dimensão de minha inutilidade em estar aqui, existir, repetir rituais, ganhar ou não dinheiro, envelhecer ou não. Não me acompanha um espelho, nesta jornada, para repetir a poesia de buscar a face ou refleti-la, no deserto.

domingo, 11 de maio de 2014

Caderno de Língua Pátria

Vi um dias desses,  um caderninho, daqueles brochuras, mais largo na base que eram usados, no grupo escolar, somente para “Linguagem” ou Língua Pátria, ou o popular (e desrespeitado) Português de hoje em dia. Sim, pois Português era disciplina do ginásio, aos estudantes da escola primária cabiam estudar Linguagem ou Língua Pátria.  Por que este caderno era o eleito para servir a tal matéria é mais um dos indevassáveis mistérios do grupo escolar do meu tempo. Havia outros, mas não vem ao caso.

Queria falar do caderninho. Quando o vi, na prateleira do supermercado, ao lado dos sofisticados cadernos universitários (usados indistintamente por qualquer reles estudante da 5a série) fiquei tentada: queria possui-lo.
Um outro indevassável mistério. Talvez julgasse que voltaria a escrever como antes, como na longínqua adolescência, que enchia suas páginas em lacrimoso diário. (Comprava este, ordinário, barato e não os enfeitados com flores e corações, destinados aos diários das meninas. Era a textura do papel que me interessava na época, que modificava a letra, eu gostava desse. Ademais a linha longa cabia as frases maiores que exigia uma instintiva diagramação). Assim, fiquei tentada a compra-lo. Acho que foi saudade do passado. Saudade da pracinha do ginásio, dos bons amigos perdidos no tempo, das risadas soltas e despretensiosas, saudade da vida por vir, saudade do futuro que nos sorriria e ainda não fora consumido pelo tempo que transforma esse futuro num túnel negro e tenebroso.
Pulei da infância para a adolescência, sem qualquer motivo. É a confusa saudade de uma quase sexagenária que julga ainda percebe-la desalojada da melancolia. Sim, por que sei que em breve alcançarei este túnel escuro, mas ainda, misteriosamente, não o temo. E recordei-me das professoras que tive, do pátio da escola cheirando a sopa de legumes, das terríveis aulas de religião que me incutiram o temor a Deus e me fizeram crer, seguidos anos, que era pecado roubar biscoitos do armário da cozinha de minha própria casa. Não pude evitar e lembrei-me que naqueles tempos, na pequena São Joaquim da Barra e, certamente em todas as pequenas cidades desse Brasil esquecido por seus governantes, algumas criancinhas iam descalças à escola. Havia em seus semblantes uma resignação envergonhada, os olhos sempre baixos, a vergonha da pobreza explícita. No segundo ano do grupo escolar houve uma menininha descalça que me causava uma indefinível sensação de mal estar. Era dor, mas eu era muito pequena para saber que a pobreza doía. Ela era magricela, cabelos marrons desalinhados. Trazia sempre o nariz escorrendo, e, na expressão, ausência de alegria. Vestia o avental branco do uniforme, feito de saco. Nas mãos um caderno fino, encardido e desencapado, um lápis e uma borracha. Não tinha as malas de couro com estojos de lápis de cor que todos os colegas ostentavam. Exposta na primeira carteira da fila, posto que fosse miúda, expunha as vísceras de um cadáver decomposto, o descaso, o abandono. Eu logo atrás podia ver suas solas imundas e perninhas tortas, sempre em movimentos ritmados. Nosso turno era de três horas apenas, não havia intervalo para lanche, mas apenas sopa para as crianças da Caixa. Esta locução que nunca tive a capacidade de compreender levava esta raquítica garotinha a responder uma pequena chamada e entrar em fila para receber uma colher das mãos da professora. Iam e vinham rapidinho, enquanto os alimentados continuavam decorando a tabuada.
Da menininha descalça não lembro o nome, mas guardo algumas lembranças nítidas. Às vezes ela, timidamente aproximava-se das crianças que corriam pelo pátio, brincando, esperando que alguém a convidasse, na verdade, autorizasse sua entrada na brincadeira. Sua humilde espreita nem era percebida, mas as crianças podem ser generosas, às vezes, e logo alguém a incluía na brincadeira. Pronto. Ela sorria, limpava o nariz com o braço direito, vez ou outra gargalhava até ficar vermelha. Lembro-me como a melhor lembrança daquela menininha triste, de sua gargalhada até as lágrimas.  Mas recordo-me: não concluiu sequer o segundo ano. Fez todo o catecismo, mas tampouco esteve presente no dia da Primeira Comunhão.
Meu pensamento romântico me fazia crer que escolheu viver feliz, entre jabuticabeiras, entre os seus. Meu cético pai, no entanto, lamentou a sorte da menina magrinha supondo que fosse, sem escalas, dos bancos escolares para o roçado, para a enxada. Mas, posso imaginar que cresceu, apaixonou-se por um rapaz forte que carpia a terra, teve muitos filhos por que é doce pensar assim, assim quero pensar.

E tanta reminiscência por causa de um caderno de linguagem, que acabei por não comprar! Achei que talvez o rapaz do caixa estranhasse uma senhora pagar por aquele caderninho, talvez  julgasse que eu quisesse apenas voltar a ser criança, coisa que não me agrada, que, se pudesse escolher ser qualquer coisa, criança é que não seria, ah, não, tão instável e medrosa, com tantas perdas por vir. Se pudesse escolher ser qualquer coisa, talvez seguisse o desejo do mestre Braga e ser passarinho. Mas, não sei se tenho alma de passarinho, talvez pudesse virar coruja para não temer, jamais, a noite. Mas escolhas por escolhas, poderia me permitir ficar feito criança em loja de brinquedo ou vitrine de doces, entre tantas possibilidades escolher nenhuma e entregar-me a ser, quem sabe, um lago sereno... Melhor ainda chuva, para ser ainda mais breve neste mundo... 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Amar Mário de Andrade, um explícito ato de antropofagia**

Mário de Andrade voltou a viver em São Paulo em 1941, à Rua Lopes Chaves 546. Voltou, pois esta foi a casa de sua juventude. Também nessa esquina morreu em fevereiro de 1945, aos 52 anos de idade.
E hoje, meio século e década depois, eu, que inadvertidamente já vivi mais que ele, ultrapassei a soleira da porta principal do belo sobrado, que esbanja amarelo e sobrevive, para o bem da verdade, preservado, entre o caos das demolições e a vizinhança de concreto e vidro.
Penetrei, cerimoniosamente, entre as paredes do vestíbulo. Em frente, a porta da cozinha entreaberta, me convidava para espiar peculiar chão xadrez. Não avancei, era cedo para atingir a sólida cozinha, centro nervoso das velhas casas, descrição precisa da nostalgia. Desviei o olhar para a direita. Uma linda escada de madeira escura desvendaria o segundo andar. Mas, fui seduzida por outra, estreita, escondida, que descia ao porão.  
Esta casa tem porão, berrou meu coração! Há de ser, pensei, um porão digno de Rubem Braga, habitável, porém inabitado. Ou, por outra, habitado por fantasmas discretos que a noite caminham em vago silêncio cortado por estalidos que denunciam a assustadora presença de nós mesmos, perdidos em medos indevassados.
O porão limpo e seco. Mas, jazia abandonado e solitário piano. Trancado. E meu revelador de momentos sem bateria, nem uma mísera foto! E o piano trancado!
Se buscava resquícios de Mário de Andrade naquele porão vazio, claro estava que seria naquele piano... Trancado! Olhei ao redor, para não me expor ao ridículo, mas queira tocar a madeira, como nos filmes. Piano feliz dos tempos em que as mãos de Mário, decerto, ainda não tremiam de tristeza pela perda do irmão, meu Deus, por que sei tanta coisa da vida de Mário de Andrade e agora vou ficar assim nesta tristezona por que um jovem de 14 anos morreu no final do século XIX, enlutando uma pobre mãe, detonando um sensível irmão?
Pouso as mãos sobre a tampa do piano, madeira quente, viva. Nem um mísero grão de poeira para acercar-me do passado que suspeitei existir naquele instante, naquele lugar improvável. A poeira das horas ali e alcançaria algum passado, tocaria no passado. Nada. Tudo limpo, asséptico e, contudo, abandonado. Chega, anuncia despertador do celular. Vejo as horas: as aulas vão começar.
Subo apressadamente: as aulas seriam na imensa sala em frente. As portas com pequenas janelas de vidro antecipavam a luz do mesmo Sol que aqueceu tardes andradianas; a maçaneta emperrou, forcei, emperrou, forcei. Entro. O pequeno grupo de oito alunos e a jovem professora já estavam a postos. Mas sala era convite ao devaneio, calma, espera, já já falaremos de nossa incipiente produção literária, já já falaremos sobre tese do autor, introitos, sinopses. Sala ampla ampla ampla, clara, clara, clara, fresca, fresca, fresca, contei oito janelas! O chão, de tábuas largas e claras, brilhava. Na parede extrema, para instigar minha antropofagia particular, a andradiana, outro piano.
Tempo, voa, horas, passem, quero o termo desta discussão interminável do que seja literatura, não, não precisa dizer que podemos narrar assim, assado. Frito de ansiedade para ver o marfim daquele teclado e deixa para lá este conceito que literatura é libertadora, é nada, é solidão e ansiedade, é dor e desconforto, é apagar a luz e caminhar no breu dos corredores labirínticos e inexplicáveis, é conjugar apenas os verbos irregulares e defectíveis, é despencar ao chão quando se quer atingir o céu, é franquear a entrada do diabo enquanto implora a Deus uma conjunção. Ah, não, nem quero saber que viver de literatura no Brasil é pra poucos, aliás já sei, ah, é preciso arriscar-se sempre, sair do conforto, acumular musculatura aos textos passionais. Chega! Calma blogueiros inquietos, calma. Para que  precisam destas ideias recortadas? Agora eu só quero mesmo ver o quintal pela janela dos fundos.
Teria aquele quintal, varal? Roupas claras dependuradas?
E o piano, pode estar desafinado? Esta sala não comporta sons comportados da boa manutenção de um piano encalacrado no futuro, mas só cabível naquele passado que preciso cheirar, tocar, quem sabe uma minúscula peça de Bach dos meus 12 anos.
Então, para o final do curso faremos um breve relato sobre a experiência deste, em forma de conto, é preciso já nos preparamos, aconselha a bela jovem professora que sorri, alheia manifesta da ocupação inoportuna da casa do poeta.
Todos saem inclusive a boa e velha senhora cega que aguardava o motorista. Sua história nos comoveu – seus pais escaparam do holocausto nazista – mas não podia mais fazer-lhe companhia. Ela se despede e me aposso, finalmente do piano, antigo, nossa, como é antigo, tem dois castiçais de prata incrustrados em seu tampo.
Arrisco o que vem a mente, um trecho melancólico de Reverie de Schumann. Discretamente, na sala vazia, esnobo meu parco saber pianístico, que a mnemória concedeu-me como um prêmio, totalmente dedicado ao fantasma que suponho visitador daquela esquina, nas horas estáticas.
Entra uma gorda mulher de ar cansado:
- Não pode tocar este piano não! Senhora! Não pode tocar piano não!
Bem, cai das nuvens – melhor que do terceiro andar – e me desculpei com fingida educação.
Sem desprezar os despojos dos detalhes que presumia encontrar naquele espaço, apressei-me. Fui à janela do quintal e nada poderia estar mais perto do que imaginei. Quintais antigos fazem parte de minha memória fotográfica. Minha avó viveu num casarão daqueles na hoje degradada rua Dino Bueno. Era igual o chão com matinhos nascendo no cimento gasto e de prêmio, a escada escurecida pela implacável pátina do tempo.  
Subi oposta escadinha que ia para a cozinha. Claro, ia servir-me de suculento e gorduroso Peru de Natal. Admito: lambuzei-me.
Voltei ao vestíbulo: tinha sérias intenções de subir aquela escada. Ainda me restavam 30 minutos até fechar o órgão público que aquela casa abriga. Subi lentamente, era preciso pisar leve e retardar o tempo. No segundo andar o assoalho brilhante faria ecoar meus passos tímidos e meu respeitoso encontro com seu quarto de vestir (soube pela minúscula tabuleta à porta), já que estava travestido de vulgar sala de aula. Rejeitei lousa, carteira e me pus a frente de minhas amigas coisas vividas, passadas, vencidas.
Restava buscar os espaços antes preenchidos por mesas, poltronas, estantes abarrotadas de alfarrábios injustiçados e, quem sabe, a porcelana do chá. Esta, poderia estar numa sobre uma mesa redonda embaixo da janela. Um livro aberto, óculos sobre ele e, perfume de jasmim, aroma preferido dos fantasmas.
A realidade pode ser cruel e chegar sob a forma de desafinada ordem: uma voz instável anunciava o fechamento da casa. Suspirei, passeando pelo sólido passado, que esta boa casa da esquina abriga.
Tenho predileção pelas casas de esquina. Em geral, são altivas, incorruptíveis. É preciso mais que tijolos e ângulos retos para dominar a ponta do quarteirão. É necessário domínio da razão, é preciso ajuntar certezas concretas, fustigar o impertinente destino e destinar vagas para o abstrato. É também indispensável ter janelas sempre abertas para os passarinhos. Sem passarinhos, uma casa de esquina pode aniquilar-se. Escadas de cimento, corrimões confortáveis, canteiros aromatizados por toda espécie de cálices e corolas são insuficientes sem as doces e pequeninas aves que se salvaram dos estilingues. Além disso, são belas, as casas de esquina. Afeitas a lisonja, não omitem sua beleza, esbanjam soberania. Mais ainda, esquinas de poetas.**


* Ia entregar, mesmo não respeitando a forma de conto, este texto na terceira e última aula do curso, mas recuei: literatura é fluida, não cabe nas regras que se pretendeu, ali, assegurar. Impossível domesticar a literatura. Deixemo-nos que se entregue ao desvairismo!
** Oswald de Andrade há de perdoar a distorção total de sua antropofagia.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Roxana Crônicas: Adorar, Verbo mais que perfeito

Roxana Crônicas: Adorar, Verbo mais que perfeito: Adoro janelas embaçadas, quartos exíguos, salas assimétricas. Adoro aquele quarto vanghoriano, mínimo e exuberante em sua pequenez.  Adoro...